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cremepimenta

Qui | 19.10.17

Um país pintado a cinza

Da torrente de imagens dos incêndios que se desfilam perante os nossos olhos, pela televisão, jornais e redes sociais, houve uma que me marcou. Pela simplicidade e pela forma como passa a mensagem que a tragédia dos incêndios deixou uma marca profunda, escrita a sangue, no nosso país.

Uma pegada de sangue, para sempre marcada no asfalto.

Foto: André Gouveia/Global Imagens
Foto: André Gouveia/Global Imagens 
O autor da foto, o fotógrafo André Campos Gouveia da Global Imagens, explica aqui a "história" da imagem.


Já muito se disse e ouviu, se escreveu e leu sobre a tragédia, mas tenho entalado na ponta dos dedos algumas considerações que quero partilhar:

- Eu acreditava que tínhamos - todos - aprendido com Pedrógão. Afinal estava enganada. Não aprendemos nada. Mas agora que a contabilidade dos mortos ultrapassou a barreira da centena, espero bem que todos nós aprendamos alguma coisa.

- É evidente que nem a ministra, nem o primeiro-ministro ou todo o Governo foi o culpado directo pela tragédia. Mas não pode o poder central assobiar para o lado e reagir com total falta de empatia. Esperava eu que quem nos governa assumisse que falhou e pedisse desculpa. Todos falhámos. Alguém devia pedir desculpa por todos nós.

- A demissão da ministra não traz os mortos de volta, nem o Costa vai agora encontrar uma varinha mágica para fazer desaparecer todos os erros do passado (com responsabilidade de todos os governos anteriores de todas as cores políticas), mas há que admitir que temos um problema e todos os partidos se deviam agora concentrar em resolver o problema de fundo e deixar a luta partidária de lado.

- Eu até consigo perceber o alcance das palavras da ministra, ou pelo menos o que ela queria realmente dizer, mas há coisas que não se dizem. Mais uma vez, dos governantes esperava empatia e não citações de cada um tem de se auto-proteger ou que isto ainda se vai repetir. Não pode repetir. Foi grave demais.

- Espero sinceramente que se olhe para a floresta como um recurso e que se reflicta sobre afinal qual o verdadeiro motivo de tantos incêndios. Quem tem a ganhar? E como podemos evitar este flagelo?

- Prevenção. Prevenção. Prevenção.

- É preciso reflectir que somos um país onde base de segurança de bens e pessoas e a resposta de emergência assenta num exército de bombeiros voluntários! Estamos no século XXI. Segundo o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, no distrito de Aveiro, por exemplo, o socorro assenta todo no associativismo, não existindo estruturas profissionais de bombeiros. Se temos políticos profissionais, porque não temos mais bombeiros profissionais e paramos de estar apenas dependentes de homens e mulheres que dão a vida por nós, sacrificando o seu tempo livre, que saem para combater um incêndio ou dar primeira resposta em caso de acidente depois de um dia de trabalho. E que voltam ao seu trabalho mesmo depois de uma noite de serviço em prol da comunidade. Os bombeiros voluntários vão sempre ser necessários e precisos, mas temos de pensar no futuro.

- É preciso agir!